Paulo Lourenço (“Paulo do Bar”)

 
FRASE
“Eu gosto do danado do vinil. O que não gosto no CD é que ele é muito pequeno pra eu manusear. Minhas mãos são grandes e às vezes (o CD) cai no chão, derrubo”. – Paulo Lourenço (“Paulo do Bar”)
[ Fonte (frase): http://www.maceioagora.com.br ]
 
 
BAR DO PAULO: Maior Coleção de Vinil do Agreste
Por Marcelo Cabral · Maceió/AL ( 15/10/2006 )
 
Finalmente conheci o famoso Bar do Paulo, este popular personagem de Arapiraca, segunda maior cidade de Alagoas. Cheguei tarde da madrugada no bar, onde fui recebido pelo próprio Paulo Lourenço da Silva, que aparenta bem menos que seus 74 anos, e cuja simpatia contagiante faz qualquer um se sentir em casa. O bar é bem simples, seus atrativos são a cerveja gelada, a decoração com quadros de artistas arapiraquenses, muito bonitos inclusive, e claro, a música. Paulo é considerado o maior colecionador de vinis do Agreste alagoano, não é pra menos, são mais de 4.000 bolachas! Discografias completas de João Gilberto a Led Zeppelin, passando por discos raríssimos de jazz europeu das antigas!
 
Conversamos um pouco em uma mesa, onde ele me contou como começou tudo isso, quando foi trabalhar em uma casa noturna em São Paulo nos anos 50 e teve contato com a música de Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Bing Crosby, Dick Himes, Sara Vaughan, entre outros cantores do jazz pós-guerra. E com isso se tornou um comprador inveterado de discos. Antes dessa experiência em São Paulo, onde viveu 21 anos, Paulo ouvia Luiz Gonzaga e Augusto Calheiros por influência de seu pai, Lourenço Luis da Silva, que era embolador de coco.
 
Paulo conta que quando era criança, na casa de taipa de sua família em um povoado na região de Palmeira dos Índios/AL, “meu pai chamava os poetas e eles faziam uma roda de coco lá dentro, na manhã seguinte, o chão estava todo batido, lisinho”. Daí nasceu sua paixão pela música.Quando fomos ao cantinho mágico do Dj (o filho do Paulo) onde está boa parte da incrível coleção, eu só podia babar, estava loucamente feliz só de estar ali e ver aquelas coisas. O primeiro que ele puxou pra mostrar foi um dos meus discos preferidos, o “Time Out” de Dave Brubeck Quartet, daí por diante foi uma viagem quase alucinógena por discos bem antigos, Sonny Rollins, Stanley Clarke, Stan Getz, Victor Assis Brasil, Alberta Hunter, Coleman Hankins! “Ufa, deixa eu ir embora Paulo, antes que eu enlouqueça aqui dentro” ao que ele respondeu com um simpático sorriso, desses de quem tem do que se orgulhar.
 
Detalhes
 Onde fica: Rua Dom Jonas Batinga, 357 – Ouro Preto, Arapiraca/AL
Por que ir: Para ouvir música de qualidade
Quando ir: Noite / Fins de semana
Quem vai: Apaixonados por música
Quanto custa: O que consumir.
 
[ Fonte: http://www.overmundo.com.br ]
 
Notas – Por Pedro Jorge (30 de setembro de 2013):
1. Atualmente o “Bar do Paulo” não está funcionando, mas ele sempre recebe os seus amigos e antigos fregueses em sua residência (neste mesmo endereço) e, em seu local de trabalho – Casa da Cultura, localizada na rua Esperidião Rodrigues próxima a praça Luiz Pereira Lima (antiga “Praça da Prefeitura”).
 
2. Existe comentários na cidade que o antigo “Bar do Paulo” se transformará em um memorial, que ficará aos cuidados do próprio Paulo com patrocínio e aval da Secretaria de Cultura e Turismo de Arapiraca. Fico torcendo que este projeto seja concretizado para abrilhantar ainda mais a cultura local e a preservação de nossa memória artística-cultural.
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 BAR DO PAULO/ Um Patrimônio Cultural da Boemia em Arapiraca
 
O bar é pequeno e fica numa esquina meio afastada do centro, mas tem personalidade, tem luz própria. O que o faz diferente? A fidalguia do dono Paulo Lourenço, a excelência da bisteca de porco, o ambiente camarada ou tudo isso junto. Mas sem dúvida a marca da casa é o bom gosto musical. A coleção de discos que inclui raridades já ficou famosa em Alagoas. O resultado é uma casa sem luxos, onde a gente é bem servido e se sente bem sozinho ou acompanhado.
 
Horário de funcionamento: Aos finais de semana das 22h até o último cliente
Cartões de crédito: Não utiliza
Endereço: Rua Dom Jonas Batinga, 357, Ouro Preto – Arapiraca/ AL.
 
[ Fonte: primeiraedicao.com.br ]
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PAULO´S BAR
Por Mozart Albuquerque
 
Em uma bodega, em um bairro de Arapiraca, um senhor vendia seus produtos enquanto ouvia as pérolas daquela efervescente MPB. Em Arapiraca os anos 1970 não foram diferentes das demais cidades do Brasil. O regime militar reprimia e a cultura, na contramão, buscava a liberdade e a provocação. Neste clima, surgiam os grandes nomes da MPB. Em uma bodega, em um bairro de Arapiraca, um senhor vendia seus produtos enquanto ouvia as pérolas daquela efervescente MPB. Bastou um professor de Francês passar por ali para descobrir este ambiente que viria a ser o ponto de encontro dos jovens e intelectuais arapiraquenses.Eu comecei a frequentar o Bar do Paulo ou Paulo´s Bar aos 18 anos.
 
Fiquei encantado com o ambiente que só respirava música, cultura e liberdade. Seu Paulo ouvia opiniões, estimulava debates e provocava os mais jovens colocando em seu som artistas desconhecidos daquele público. Em 1980 fiz, no Bar do Paulo, a primeira exposição realizada em bar em Alagoas, “Visualização dos sentimentos”. O Bar passava a agregar música às artes plásticas. Na base do boca a boca, as pessoas começaram a freqüentar o Bar do Paulo e este ambiente começou a ficar pequeno.Nos finais de semana, era comum atingir a lotação máxima de pessoas e conseqüentemente muita gente ficava na rua.
 
A esquina do Bar virava uma grande festa e dificilmente alguém saia antes das 05:00 h. Apesar de Seu Paulo ser uma pessoa tolerante, ele tentava impor limite aos excessos de seu público, predominantemente jovem, quando era preciso. Nas altas madrugadas, as gargalhadas, as cantorias e as polêmicas alimentavam o seu bar. Pessoas de outros países, quanto visitavam Arapiraca, eram levadas a este ambiente. Elas confirmavam que o Bar do Paulo era tão moderninho quanto qualquer pub inglês ou qualquer ambiente alternativo de New York.
 
E neste ambiente, em eterna ebulição, as paixões aconteciam ao som de “Como nossos pais” interpretado por Elis Regina ou “Travessia” na voz marcante de Milton Nascimento, um dos ídolos preferidos de Seu Paulo. Muito tempo depois, os frutos destes romances, frequentavam o bar.O Bar do Paulo pode ser traduzido como poesia, clube de amigos, escola, saudade e revolução. Um lugar onde a liberdade esteve sempre presente, onde o termo diversidade era praticado muito tempo antes do modismo. Um ambiente único, palco de loucuras, aprendizados, descobertas e possibilidades.Na história, no tempo e no futuro ecoam versos das três músicas mais tocadas em todos os tempos no Bar do Paulo: “Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver”, “se não chega a morte ou coisa parecida e nos arrasta moço sem ter visto a vida” “e eu sei de tudo na ferida vida do meu coração” (respectivamente “Travessia” – Milton Nascimento, “Canteiros” – Fagner e “Como Nossos Pais” – Elis Regina).
 
Imagem: alagoas24horas.com.br[ Fonte: http://www.zoiotv.com ]

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DJ DO AGRESTE

Na cidade de Arapiraca, Agreste alagoano, Paulo Lourenço vem fazendo educação musical no espaço de um Bar. O documentário “DJ do agreste” conta a história de como Paulo construiu e sustentou a trajetória de mais de 30 anos de resistência cultural.

Produção: Ideário, Boca da Noite, DKS.
Direção: Regina Barbosa.

Venceu o prêmio de melhor filme no Júri Popular do 9º Goiania Mostra Curta

Ficha Técnica:
Direção geral: Regina Barbosa
Produção: Vera Rocha, Pedro da Rocha e Maria Cláudia
Imagens: Cícero; Gerson Barros e Márcio
Técnico de som: Peixe
Assistente de direção: Mariana Bernardes e Lis Paim
Direção de arte: Mariana Bernardes, Lis Paim e Regina Barbosa
Edição e finalização: Pedro da Rocha.

[ Fonte: reginabarbosa.wordpress.com ]

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 O Bar do Paulo Não Morreu ( Sinopse )
Por Breno Airan ( 29/06/2011 )
 
 Em meados de 2007, a produtora cultural, designer e escritora Regina Célia Barbosa chegou de surpresa, com sua equipe, no bar do Paulo, em Arapiraca, e disse: “Paulo, vamos gravar um documentário com você, ok?”.

Ele, a esmo, já estava em frente às câmeras, um pouco desconfortável no começo, falando sobre os grandes poetas da música e o que eles teciam sobre a vida – e como isso tinha mudado sua relação com o mundo lá fora.Logo, Paulo Lourenço da Silva ficou mais tranquilo diante das lentes, alcançando, nas prateleiras de seus mais de quatro mil vinis, algumas raridades com suas enormes mãos engelhadas.Dois anos depois, a produtora estaria concorrendo ao troféu Icuman, em mais uma edição da 9ª Goiânia Mostra Curtas. Na categoria Curta Mostra Brasil, segundo o júri popular, o “Melhor Filme” foi DJ do Agreste, o documentário que mostrava a noite no Bar do Paulo.

A película foi vista por um público de cerca de oito mil pessoas, no Teatro Madre Esperança Garrido do Colégio Santo Agostinho, na capital de Goiás, e, segundo a produtora, “conta a história de como Paulo construiu e sustentou a trajetória de mais de 30 anos de resistência cultural”. Mas Paulo anda meio cabisbaixo e tenta, na música e na literatura, um refúgio para o que ele julga ser amizade, já que seus antigos frequentadores não são assim mais tão assíduos.

Visita – O conhecido DJ do Agreste é um exemplo de anfitrião. Eu estive em Arapiraca, na residência de esquina da Rua São Luiz com a Rua Dom Jonas Batinga, no bairro de Ouro Preto, para um bate-pronto com o precursor da boa música em terras do unânime forró elétrico.

Há várias roupas estendidas num varal improvisado por entre as quase vinte mesas com inscrições de marcas de cerveja. “O bar é a extensão da minha casa”, brinca ele. Mas ele não foge à solidão. Hoje, Paulo acaba de completar 79 anos de idade, com alguns problemas na perna esquerda, a diabetes e uma isquemia no currículo.

No final do ano passado surgiu o comentário de que ele havia morrido – na verdade, fora outro Paulo, dono de outro bar da imensa Arapiraca. “Mas eu ‘ganho o dia’ quando reencontro um amigo – e muito mais quando eles vêm me visitar”, conta, rindo.

Ele, que ainda com 20 anos, em 1952, se mudou para São Paulo para tentar ganhar a vida por lá, acabou por tomar gosto pela música internacional e MPB e resolveu trazê-la, em 1973, para o interior da Terra dos Marechais, lugar esquecido pelos censores da ditadura. “É muito bom música. Música é muito bom. Eu gosto…”, diz ele, arqueando o sempre branco bigode e sorrindo. “É um dos meios de comunicação mais preciosos. Uma troca de gostos”, completa.

Sobre formar uma geração arapiraquense com cultura de primeira, afirma que “minha participação ativa foi um bom papo, sobre rock, MPB, jazz, sobre o Cinema Novo, o que estava ‘rolando’. Noto que as pessoas antigamente eram mais participativas, alegres de verdade. Hoje, não vejo isso no meu bar”.

Cult – Esse foi o primeiro bar em Alagoas que teve a proposta de aliar pintura com música. O artista plástico Mozart Albuquerque inaugurou a tendência. “Em Arapiraca, os anos 1970 não foram muito diferentes das demais cidades do Brasil. O regime militar reprimia e a cultura, na contramão, buscava a liberdade e a provocação. Neste clima, surgiam os grandes nomes da MPB. Em uma bodega de esquina, um senhor vendia seus produtos, enquanto ouvia as pérolas daquela época”, quase que declama Mozart.

Aos 18 anos, o futuro frequentador visitou pela primeira vez o Bar do Paulo e ficou “encantado com o ambiente, que só respirava música, cultura e liberdade”. “Seu Paulo ouvia opiniões, estimulava debates e provocava os mais jovens, colocando em seu som artistas desconhecidos daquele público. Em 1980, fiz, no próprio local, a primeira exposição realizada em um bar em Alagoas: ‘Visualização dos sentimentos’. O bar passava a agregar música às artes plásticas”, diz Mozart.

Segundo ele, na base do boca-a-boca, as pessoas começaram a frequentar o ambiente, o qual começou a ficar pequeno. Nos finais de semana, era comum atingir a lotação máxima de pessoas e, consequentemente, muita gente ficava na rua. Do lado de fora mesmo, esperando uma mesa esvaziar.

Na rua, certa feita, ficou Alceu Valença, em 1982, por justamente faltar mesa. O bar estava literalmente entupido, pois ALceu tinha acabado de fazer um show na cidade, da turnê do álbum “Cavalo de Pau”. Então, numa mesa improvisada e sentado numa caixa de cerveja, o pernambucano bebeu lá mesmo – e por lá também passaram os artistas Lobão, Hermeto Pascoal, Quinteto Violado e o global Murilo Rosa, ao longo das décadas. “A esquina do bar virava uma grande festa e dificilmente alguém saia antes das 5h”, conta o artista plástico Mozart Albuquerque. Os frequentadores – muito diferentes dos que se chamam “clientes” – só iam embora quando o sol passava pelas frestas das janelas de vidro. Mesmo assim, tristes e querendo mais.

Com efeito, o Bar do Paulo – que já foi chamado pelo historiador Zezito Guedes de “Recanto bucólico” e pelo já falecido gerente Ernande Moreira de “República dos boêmios” – parece que era o termômetro de Arapiraca. E que não pode esfriar.

“Cheguei por lá, em 2006, com meu primo Thyeres e já sabia da fama do bar. Logo pedi pra tocar os vinis dos Jimi Hendrix, Deep Purple, Rolling Stones e Rainbow! Pude tomar minha cerveja tranquilo até o mais tardar da noite, sem perturbação alguma. Tava lotado. Todas as pessoas lá eram tranquilas. E o que falar da famosa costela de porco? Ora, Long Live Bar do Paulo!”, declara o estudante Gabriel Amorim, fazendo alusão à música da banda Rainbow, Long Live Rock n’ Roll.

“Sou fissurado na noite. Sou um vagalume! ficarei aqui até quando eu puder. Gostaria inclusive de fazer algumas reformas no ambiente, mas não tenho como”, lamenta o anfitrião de 79 anos, que sabe da importância de seguir em frente; de disseminar os bons frutos de uma geração autêntica. Vida longa ao… Paulo!

[ Fonte: http://www.maceioagora.com.br ]

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CRÔNICA / Por Roberto Gonçalves

BAR DO PAULO – Lugar de Poesia ( Sinopse )

O ano de 1971 surgia com grandes transformações e conquistas  em vários campos – da música, futebol, ciências e tecnologia, comunicações. Em meio ás mudanças, surge em Arapiraca/AL, o Bar do Paulo. A casa era  modesta, na Rua São Francisco (que não tinha calçamento), apenas duas portas; alguns tamboretes, sob o balcão, serviam para a acomodação dos poucos fregueses. A fidalguia, a maneira de receber bem as pessoas e uma seleção do melhor da MPB e do Jazz (inebriando e enchendo de emoção aquele ambiente simples) foram fazendo com que o Bar do Paulo se transformava-se no maior ponto de encontro de boêmios e da juventude de Arapiraca.

A música, na sua linguagem universal, passou a ser um ingrediente mais forte do Bar do Paulo. Ali, os jovens se encontram, conversam, paqueram, marcam encontros. Tudo é alegria, emoção, nas noites frias de Arapiraca. Nas décadas de 1970 e 80 os jovens que conseguiam a vitória no vestibular, escolhiam o Bar do Paulo para as comemorações regadas com muitas doses de “Cubra libre” e Martini. O ambiente continua simples, todavia,  muito  aconchegante e Paulo Lourenço preserva o seu estilo de perfeito anfitrião.

O governador Divaldo Suruagy reservou ao Bar do Paulo uma das crônicas inseridas no seu livro “Os Ventos Estão Inquietos”, e descreve: “Paulo não tem maiores preocupações com dinheiro; o grande lucro é o convívio com jovens, o encontro com amigos, os diálogos que mantém na madrugada, sobre os mais variados assuntos. Ele não é um comerciante. É um verdadeiro anfitrião”.

O professor, folclorista e pesquisador Zezito Guedes, destaca o Bar do Paulo, como um recanto bucólico, onde os frequentadores sentem-se á vontade, com a cortesia e a grande popularidade do Paulo Lourenço. Para o bancário e escritor Ernande Moreira, o Bar do Paulo, é a “República dos momentos da sua juventude, quando curtia a boa música da década de 1970, ouvindo o ‘Jazz’ de Nat King Cole, interpretando “Ansiedad”, Maysa Matarazzo e Dolores Duran”.

No mês que passou, o Bar do Paulo, completou o seu “Jubileu de Prata”: 25 anos dedicados á juventude, aos noctívos de Arapiraca. Os seus inúmeros amigos e admiradores reuniram-se para uma grande comemorração. O Bar do Paulo, ficou pequeno e a comemoração aconteceu na rua, com muita emoção e alegria.

Petrúcio Falcão, na sua sensibilidade de músico e poeta, descreve o Bar do Paulo “como um canto de amigos, emoção; lugar de poesia, no ar a canção, alegria. Encontro de irmãos”.

[ Fonte: Revista “Periscópio”, janeiro e fevereiro de 1997 ]

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Bar do Paulo – Arapiraca/AL

ENTRETENIMENTO – Ícone da Cultura Arapiraquense, Bar do Paulo Ganha Documentário – Já em fase de pré-produção, filme é idealizado por jovens arapiraquenses; proprietário completou 82 anos de idade – Por Breno Airan (2 de julho de 2014)

Com seus 20 e poucos, Paulo Lourenço da Silva, dono do histórico “Bar do Paulo” em Arapiraca/AL, perambulando feito menino sambudo pelas calçadas da capital paulistana, nos idos da década de 1950, quando foi para lá acompanhando um tio doente. Essa é a imagem em 3D que ele acabara de conhecer: um mundo de possibilidades. Nordestino tinha essa mania de achar que podia melhorar de vida na cidade grande. Do interior de Palmeira dos Índios/AL, onde residia em fazenda e tinha boa educação, Paulo resistiu ao cheiro do campo, das vacas e dos amores juvenis e foi respirar fumaça e ver se havia amor em São Paulo.

Acabou por arranjar um emprego, depois de vasculhar os jornais diários, circulando tudo o que era oportunidade. Virou garçom. Dos bons. Tanto é que tomou para si esse dom da cortesia e abriu o empreendimento que mais ‘fez a cabeça’ de uma geração na cidade de Arapiraca, com inauguração em setembro de 1973. E, em São Paulo, enfim, seu primeiro contato afinal com a telona – bem como com a literatura, as artes visuais, a filosofia, a música. Cine Belas Artes, Majestic, Picolino e Regência, todos eles cinemas com um acesso razoável. “Frequentar aquela sala escura mágica não era tão caro quanto hoje”, diz.

Agora, o próprio Paulo do Bar – como é também conhecido – será material fragmentado nos 35mm de um documentário que está sendo idealizado por um grupo de jovens arapiraquenses. “A história dele se confunde com a de desenvolvimento do município arapiraquense. Ele chegou aqui e o encanamento de água da Casal [Companhia de Saneamento de Alagoas] estava cortando o seu bairro, por exemplo. O seu Paulo viu o alvorecer de uma cultura fumageira, a expansão do comércio e, ao ponto, que contribuiu com a construção política, sociológica, fílmica, musical e artística de um modo geral de toda uma geração”, conta o cineasta Leandro Alves, à frente da investida que irá fazer um registro deste importante marco que foi a presença deste bar no âmago cultural da cidade.

Na equipe, há jornalista, fotógrafo, produtor cultural e outro diretor, José Faustino Neto, que a seu lado filmou o documentário “Salão dos Artistas”, rodado em 2012 e que venceu a categoria “Velho Chico de Cinema Alagoano” na última edição do Festival de Cinema Universitário de Alagoas, em Penedo, concorrendo com películas de todo o país. A obra trata da vida de Cecílio Francisco da Silva, o “Seu Cecílio”, mestre da afinação de sanfonas em território alagoano, que possui também uma barbearia.

Segundo Leandro Alves, formado em Produção Audiovisual pela Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas (FACISA), em Campina Grande/PB, existe muito a se contar sobre o homem por trás da vitrola. “Paulo do Bar” tem uma vasta coleção de vinis (mais de quatro mil deles) e sempre escolhia a dedo as canções de jazz, blues, MPB, rock, reggae, música erudita, africana e nordestina que rodopiavam em sua vitrola.

“Um dos episódios a serem contados é como o bar surgiu. Bem, antes de mais nada, houve uma terrível tragédia em que sobrinhos dele morreram no São João daquele 1973. Ele regressou de vez de São Paulo trazendo consigo, além das lágrimas e suor do trabalho, toda sua bagagem – nos dois sentidos –, mulher e dois filhos. E, de bodega, o lugar se tornou point da cidade por causa de uma única música de jazz de Dave Brubeck”, comenta o produtor cultural e músico Janu Leite, que também integra a trupe.

Em fase de pré-produção, ele, Leandro Alves e José Faustino Neto estão roteirizando tudo e localizando possíveis entrevistados, entrando em contato até com figuras como Alceu Valença, que esteve no Bar do Paulo à época de seu álbum “Cavalo de Pau”, de 1982, quando em turnê pelo interior nordestino. Passaram por lá também artistas do gabarito de Hermeto Pascoal, Quinteto Violado, Lobão e Murilo Rosa, além de pessoas muito talentosas de nossa terra. No dia em que deu as caras pelo estabelecimento, Alceu – que na última quinta-feira (26) se apresentou no São João de Maceió – notou que não havia mesas vagas. O cantor e compositor pernambucano de bom grado perguntou apenas se a “loira” estava gelada e sentou-se em cima de uma caixa de cerveja na calçada mesmo. Ele e outros integrantes de sua banda, humildemente.

“Há tantas histórias, meu filho, que aconteceram por aqui que daria um livro para mais de 400 páginas. Um dia, espero escrevê-lo com a ajuda de amigos”, brinca Paulo Lourenço, enfatizando os momentos que passou ao lado dos clientes-amigos. De fato, artistas plásticos, músicos, atores, poetas e intelectuais de ponta de mesa viviam a madrugar por lá. Quando se gosta de uma coisa a fundo, com 38 anos não é lá idade certa para se pensar em aposentadoria. Mas ela, no caso de Paulo Lourenço da Silva, que no domingo (29/6) completou 82 anos, veio de forma brusca.

Seu bar, seu estabelecimento, a extensão de sua casa – como ele gosta de chamar – se confunde com ele próprio. Bar do Paulo. Paulo do Bar. O jungir dos fatos sempre assomam e assentem para o que o incentivador cultural ergueu, construiu na cidade de Arapiraca em décadas passadas. O local fechou as portas em definitivo em 2011, antes mesmo de completar quatro décadas de existência, devido a problemas de saúde decorrentes do trauma de um assalto à mão armada que aconteceu no dia 16 de agosto, dois anos antes. Este é o ponto de partida do documentário de Leandro Alves. Após o revés, o já idoso Paulo sofreu uma isquemia e teve que ser levado nos braços para o Hospital Regional Nossa Senhora do Bom Conselho.

O cineasta vai primar por uma plástica que dê mais voz ao sentimento, ao que e a quem é o proprietário deste bar, que influenciou tanta gente em meio à plena Ditadura Militar – havia pessoas que iam para Arapiraca de outras cidades de Alagoas e até de estados vizinhos só para prosear e ouvir boa música na esquina das ruas São Luiz e Dom Jonas Batingas, número 357 – bairro Ouro Preto. Diante da proposta musical, diversos empreendimentos foram abertos por conta daquele ao longo das décadas seguintes, como o Buraco’s, Kanteiro’s, On The Rocks, Ópera Bar, Botequim NaBaxa, Mystura Fyna, Echoes Music Bar e Habeas Copos Bar.

Este, no entanto, não é o primeiro documentário a ser feito sobre esse personagem icônico: em 2007, a produtora cultural, designer e escritora Regina Célia Barbosa fez um apanhado e desenhou na telona o ótimo “DJ do Agreste”. O doc, dois anos mais tarde, ganharia a categoria Curta Mostra Brasil como “Melhor Filme”, segundo júri popular, na 9ª Goiânia Mostra Curtas. “O cantor Milton Nascimento fez, em Belo Horizonte, o Clube da Esquina e ele, o Bar do Paulo. Era um ponto de encontro de amigos, mais do que tudo. Aprendemos muito com ele”, diz o empresário Marcos Góes.

Não à toa, no mês passado, Paulo Lourenço foi chamado para um evento regional do curso de Arquitetura para ministrar o painel “Arapiraca de Mil Novecentos e Antigamente” e se saiu muito bem, traçando como era a cidade e quanto ela evoluiu, sendo hoje considerada uma das metrópoles do futuro e com o sétimo maior poder de consumo do Brasil.

“Esse município me deu a paz que eu procurava e só quis retribuir aos que frequentavam essa casa, esse bar com a cortesia de quem quer apenas papear. Tem coisa melhor que botar um vinil bacana e conversar com um amigo, meu jornalista?”, dispara Paulo, diretamente de sua sala de estar preferida. A seu lado, sempre a dona Antônia, sua esposa, a mulher por trás da famosa costelinha de porco do local. Se ele fazia a cabeça da moçada, ela, o ‘bucho’.

Isso também é alimento para as devidas lembranças dos frequentadores. “Quem não se recorda daquele tira-gosto?! Era a marca do estabelecimento, que aliava a boa culinária à ótima música. O local deveria ser tombado”, diz o jornalista William Rocha. Enquanto isso não acontece, a Secretaria de Cultura e Turismo de Arapiraca o reverenciou em agosto último, dando-o certificado em evento dos mestres da Cultura Popular Tradicional, no Museu Zezito Guedes.

Ainda em fevereiro deste ano, em Marechal Deodoro, ocorreu um encontro entre representantes de Pontos de Cultura de Alagoas e gestores do setor de todo o estado na Teia Alagoana, para que se desse o debate de estratégias de sustentabilidade, manutenção e acesso dessas entidades. O DJ do Agreste acompanhou a comitiva da Prefeitura de Arapiraca e discotecou por lá. Vários foram os elogios ao dono do estabelecimento mais benquisto da região. “Para mim, é um patrimônio cultural vivo e preserva o que há de melhor em nossa música”, coloca José Leão, representante do Ponto de Cultura Menino do Sítio, da cidade de Igaci/AL.

Já a bibliotecária arapiraquense Wilma Nóbrega o citou como ícone da cultura arapiraquense. E Osvaldo Viégas, secretário de Estado da Cultura (Secult), disse que foi um privilégio tê-lo naquele evento, onde Paulo pôde mostrar seu trabalho como DJ e parte de seu “arsenal”. “Foi uma satisfação enorme tê-lo conosco naquele encontro das Redes de Pontos de Cultura! Eu, pessoalmente, estive em seu bar por diversas vezes. Quando me desfiz dos meus vinis, entreguei meus LPs ao próprio Paulo. Sei que está em boas mãos, enriquecendo sua coleção, seu patrimônio. É muito importante que a gente faça o reconhecimento por tudo o que ele fez para as gerações que passaram por seu estabelecimento”, pontua Viegas.

Decerto, os cineastas que estão em fase de pré-produção do novo documentário sobre ele terão bastante trabalho pela frente. “Vamos madrugar fazendo esse filme, como que no clima das noites vividas e embebidas pela aura do bar”, diz o diretor José Faustino Neto. É esperar, então, pela luz do sol através das frestas das janelas.

[ Fonte (link): http://www.tribunahoje.com/noticia/108301/entretenimento/2014/07/02/cone-da-cultura-arapiraquense-bar-do-paulo-ganha-documentario.html ]

[ Editado por Pedro Jorge / E-mail: pjorge-65@hotmail.com ]

5 Respostas para “Paulo Lourenço (“Paulo do Bar”)

  1. “Milton Nascimento criou, em Belo Horizonte-MG, o Clube da Esquina. Paulo Lourenço criou, em Arapiraca-AL, o Bar do Paulo… Aprendemos muito com ele, legiões de amigos se encontravam, se amavam, se respeitavam, se confraternizavam… Ainda hoje existe nesses amigos a verdade de que aquele foi o melhor tempo. Saíamos a pé uma, duas, três horas da manhã e o que encontrávamos nas ruas eram mais amigos… E hoje?”
    Marcos Góes ( Empresário arapiraquense ).

  2. Quero deixar aqui o meu depoimento a respeito desse ÍCONE que é o BAR DO PAULO, umas das casas noturnas mais antigas que nos trazem boas lembranças e nos faz reviver o passado. Atualmente moro em SP – CAPITAL , mas sempre que viajo a cidade de Arapiraca faço questão de prestigiar esse lugar que é ímpar na cidade, me fez crescer, e aprendi a ouvir boas músicas de bandas renomadas como: LEGIÃO URBANA, HANOI HANOI, PLEBE RUDE, ZERO, RPM, HERÓIS DA RESISTÊNCIA, CAZUZA & BARÃO VERMELHO e outras bandas e artistas renomados que só no BAR DO PAULO tocava em VINIL.
    O estúdio musical com um acervo de discos de vinil que só o Paulo tem! Sem contar a comida, aquela maravilhosa costela de porco, acompanhada com uma salada de alface e tomate, aquele tempero maravilhoso e saboroso que só lá encontra, o ambiente traz toda a minha adolescência de volta, junto com boas lembranças da época em que frequentava essa casa noturna ( BAR ), lembro – me que só abria duas vezes por semana e era o suficiente para a casa está sempre cheia de pessoas resolvidas e de muito bom gosto, prestigiando e trocando boas ideias, com o Paulo de anfitrião de primeira qualidade.
    Tenho muita saudades desse lugar, Acho que o modelo de negócio do Paulo deveria virar uma franquia. Sem palavras para elogiar a casa!
    Atenciosamente, Anízio Santos – São Paulo-SP.

    • Caro leitor, Anízio Santos, atualmente o “Bar do Paulo” não está funcionando, mas ele sempre recebe os seus amigos e antigos fregueses em sua residência (neste mesmo endereço) e, em seu local de trabalho – Casa da Cultura, localizada na rua Esperidião Rodrigues próxima a praça Luiz Pereira Lima (antiga “Praça da Prefeitura”).
      Existe comentários na cidade que o antigo “Bar do Paulo” se transformará em um memorial, que ficará aos cuidados do próprio Paulo com patrocínio e aval da Secretaria de Cultura e Turismo de Arapiraca.
      Fico torcendo que este projeto seja concretizado para abrilhantar ainda mais a cultura local e a preservação de nossa memória artística-cultural.Com certeza este é um dos sonhos do amigo Paulo Lourenço, da prefeita Célia Rocha e de todos nós que vivenciamos aquela época de ouro.
      Abs, Pedro Jorge.

  3. HOMENAGEM AO MEU PAI
    Por Paulo Celso

    My Heroe, o que dizer de pessoa tão sublime, meiga, atenciosa… inteligente, estava lembrando de minha infância e juventude, esse cara me deu as chaves da porta do mundo, cresci entre discos e livros, tive uma infância riquíssima. Sempre se esforçou pra deixar a família tranquila, homem trabalhador… dedicou todos os seus dias e horas, objeitvando o melhor para todos… na verdade não sei o que dizer, nem como homenagear alguém que para mim é mito, é história…

    Todos os obrigados são poucos para expressar minha gratidão e apreço e todos os abraços e beijos são mt poucos para externar o quanto EU TE AMO. Feliz dia dos pais “Seu Paulo”, meu amigo, meu irmão, meu orgulho. Peço a Deus que sejas eterno, sem sua luz minha vida perde o brilho. bjão pai!!!!!”

    Fonte: Facebook de Paulo Celso.

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