ARTISTAS DE ARAPIRACA III (2)

CAPÍTULO 3

 

ARTIGOS POR PEDRO JORGE, JOSÉ LESSA GAMA/ZÉ LESSA, DAVI SALSA & MÔNICA NUNES, CLÁUDIO ROBERTO, MARCELO AMORIM E RONALDO OLIVEIRA

 

Créditos: vinil João do Pife “O Rei do Pife” – site Forró em Vinil e caricatura de Zé do Rojão (preto e branco) – Bezerra Frank.

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CAPÍTULO 5 – ARTIGOS POR PEDRO JORGE, JOSÉ LESSA/ZÉ LESSA, DAVI SALSA & MÔNICA NUNES, CLÁUDIO ROBERTO, MARCELO AMORIM E RONALDO OLIVEIRA

 

 

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Joryo & Roberto Carlos (Clube dos Fumicultores – Arapiraca, 17 de agosto de 1977).

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5.04 l  JOÃO DO PIFE E OUTROS ÍCONES ARAPIRAQUENSES (Por Pedro Jorge)

João do Pife é o nome artístico de João Bibi dos Santos (1932–2009). Ele foi um dos mais prestigiados músicos arapiraquenses. Autodidata, conseguiu com o seu processo criativo único, revolucionar a arte de tocar o pífano. Ainda criança aprendeu a tocar o instrumento, ao mesmo tempo que ajudava os pais na atividade do cultivo do fumo. Seu nome começou a ficar conhecido no final da década de 1960, permanecendo com bastante sucesso até o final da década de 1980. Neste espaço de tempo, João do Pife realizou inúmeros shows por todo o Brasil, e além-fronteiras. Ele teve a oportunidade de acompanhar grandes artistas a exemplo de Dominguinhos (1941-2013) e Luiz Gonzaga (1912-1989). Até hoje o seu nome está ligado, principalmente, a sua parceria com o comediante Coronel Ludugero (1929-1970), tornando-se, assim, um dos principais ícones da musicalidade arapiraquense. Ele gravou inúmeros vinis e foi considerado por muitos experts da legítima música regional nordestina como O Rei do Pife.

A antiga Capital Brasileira do Fumo também foi o berço artístico de outros grandes instrumentistas a exemplo de Hermeto Pascoal. O início de sua trajetória artística foi entre as cidades de Lagoa da Canoa e Arapiraca (AL), pois ele se apresentava nas Feiras Livres desses dois municípios. Outro exemplo marcante é o virtuoso e consagrado violonista arapiraquense, Fernando Melo, que forma ao lado de Luiz Bueno o famoso duo instrumental Duofel – que tem uma carreira de sucesso bastante sólida no Brasil e no exterior.

Outros artistas populares de Arapiraca que ficaram conhecidos a nível nacional são: O cantor, Daniel Brasileiro (in memoriam) – que emplacou nos anos 1970 alguns sucessos nas paradas musicais. Daniel participou de diversos programas de auditório: Clube dos Artistas, Aleluia, Buzina do Chacrinha, entre outros. Também foi exibido um clip de uma de suas músicas (Pé no Caminho) no programa Fantástico. A sua composição mais famosa é Duas Lágrimas – um dos grandes sucessos de Wando (1945-2012). Ele faleceu, no dia 15 de setembro de 2012, em São Paulo. A cantora, Silene, que fez sucesso no exterior. Ela iniciou a sua trajetória artística na Terra do ASA “Gigante” como crooner de diversas bandas. Silene emplacou muitos sucessos no Peru, onde é conhecida como La Garota de Oro e; os seus irmãos Giullian Jacinto, Cláudio, Jacinto do Sax e o seu sobrinho, Klebio Jakson. Todos eles continuam trabalhando na área musical, em São Paulo.

Outro exemplo de uma vida totalmente dedicada à música é o veterano sanfoneiro, compositor e radialista Miguel Vieira. Ele é um artista completo e juntamente com os seus irmãos e outros músicos arapiraquenses montou, nos anos 1960, o primeiro grupo jovem de Arapiraca (Os Notáveis). Nos anos 1970 e 80, Miguel era conhecido como O Príncipe do Carimbó e tem o privilégio de algumas de suas composições atingirem o topo das paradas de sucessos nacionais nas vozes dos (saudosos) Alípio Martins (Garota) e Maurício Reis (Mercedão Vermelho). Os talentosos Janu, Breno Airan, Marcus Mausan, Lourenço Roque e outros jovens que estão despontando no cenário musical; Dira Lino, Eribério, César Soares, Gildo Araújo, Elaine Kundera, Jorginho, Laércio Moreno, Romildo Lúcio e outros artistas que animam as noites, em barzinhos e casas de shows; Afrísio Acácio do Acordeon e seus convidados no Projeto Cultura na Praça… São inúmeros os nossos representantes nas diversas áreas culturais que divulgam o nome de nossa querida Arapiraca para todo o Brasil.

Nos últimos anos de sua vida, João do Pife, foi acolhido por Miguel Vieira Dules e por sua esposa, Maria Aparecida (prima do João do Pife). Apesar dele, se encontrar, na época, musicalmente no ostracismo há bastante tempo e sofrendo de diversas doenças, as mãos amigas de Miguel e de sua companheira foram as que verdadeiramente ampararam aquele que um dia recebera os aplausos de milhares de pessoas em diversos clubes, cinemas, circos, teatros e locais públicos. Vale a pena registrar o emocionante discurso que Miguel Vieira proferiu no momento do sepultamento desse saudoso e genial músico. O Rei João do Pife foi enterrado em um cemitério público localizado no bairro Canafístula, em Arapiraca. Espero que, brevemente, algum representante de órgão público, empresário ou cidadão comum se sensibilize e construa um túmulo no cemitério e/ou uma estátua em praça pública como forma de homenagem póstuma para ele.

Fontes: (extinta) revista O Mensageiro e blog Arapiraca Legal – Pedro Jorge.

 

5.05 l  TRIBUTOS A SEBA E YOYÔ DO JAPÃO (Por Pedro Jorge)

Este artigo é uma homenagem póstuma a dois importantes e inesquecíveis nomes ligados à cultura popular arapiraquense de entretenimento: o carnavalesco, desportista e motorista – Sr. Sebastião Braz de Melo/Seba; e o organizador da festa denominada Pega de Boi no Mato e vaqueiro – Sr. Epitácio/Yoyô do Japão. Essas duas saudosas personalidades arapiraquenses contribuíram e proporcionaram diversão e alegria para milhares de pessoas com as suas habilidades profissionais e os seus legados pessoais.

Tributo a Seba – Sebastião Braz de Melo, conhecido como Seba, nasceu na cidade de Caruaru (PE), em 8 de agosto de 1936. Ele chegou no ano de 1958, em Arapiraca (AL), através de um convite feito por Cural (goleiro), para fazer parte do elenco do ASA (Agremiação Sportiva Arapiraquense). Seba jogou na decisão do Torneio do Interior, competição também conhecida popularmente como Torneio do Boi, na posição de zagueiro central e ajudou o ASA a ser campeão deste evento esportivo. Ele foi um zagueirão – tinha 1,86 m. de altura e excursionou com o Alvinegro Arapiraquense, em 1960, por algumas cidades dos estados de Pernambuco e Paraíba e ajudou o ASA ganhar todos os jogos amistosos que disputou.

Além de suas atividades como atleta profissional, ele também participou ativamente da vida cultural e social de Arapiraca. Foi ele quem fundou a primeira escola de samba: Gigantes do Ritmo. Seba sabia tocar todos os instrumentos musicais pertencentes a uma agremiação de samba e, também foi o compositor do samba-enredo Iracema, a Virgem dos Lábios de Mel. Como músico também teve a oportunidade de se apresentar ao lado de grandes nomes da música regional nordestina, como por exemplo: Jackson do Pandeiro, Jacinto Silva e Zé do Rojão (in memorians).

Seba trabalhou na Rádio Novo Nordeste AM de Arapiraca, como profissional do volante e comentarista esportivo e na 96 FM de Arapiraca como motorista, vendedor de anúncios publicitários e, também participava de alguns programas da emissora contando causos e piadas. Ele morreu no dia 17 de julho de 2004, em um acidente automobilístico na rodovia AL 115 – Arapiraca, juntamente com mais quatro pessoas, quando seguia para a cidade de Caruaru (PE). Seba ainda saiu com vida do impacto, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu na mesa de cirurgia da UEA/AL (Unidade de Emergência do Agreste de Alagoas).

Tributo a Yoyô do Japão – Sr. Epitácio, popularmente conhecido como Yoyô do Japão, foi um dos idealizadores de uma das mais tradicionais festas da região Agreste de Alagoas: a Pega de Boi no Mato e, também, um dos melhores vaqueiros juntamente com Arestides Zezinho, seu cunhado; neste tipo de competição. Este evento era realizado anualmente, no mês de dezembro, no povoado Serrote do Japão – que faz limite entre as cidades de Arapiraca e Girau do Ponciano (AL), atraindo a vaqueirama de todo o Nordeste brasileiro. Ele também foi um dos maiores incentivadores e divulgadores dos toadeiros e aboiadores de nossa região.

Yoyô do Japão é pai do Pita (funcionário da SMTT de Arapiraca), Zé Lúcio (ex-vereador de Arapiraca e atual presidente do Clube dos Fumicultores), Manoel, China, Jório de Yoyô, Nenê e Coelho; e de várias filhas. Na Pega de Boi no Mato os inscritos se lançam pela região árida na tentativa de vencer os desafios trazendo como prêmio os animais fugidos. A dupla que sempre fazia a abertura desta festa era Zominho Aboiador & Antônio Sobrinho. Outros aboiadores que sempre participavam e, portanto, merecem destaques são: Zé de Almeida & Paulo Nunes, Vavá Machado & Léo Costa, George & Neno do Gado, Abílio Neto & Irmão e Gero Batista & Miguel S. do Gravatá.

O Sr. Epitácio faleceu no dia 22 de dezembro de 2006. Como lembrança e herança ele deixou o seu filho, Jório de Yoyô, e o seu neto, Júnior – como exímios vaqueiros. Com certeza toda a vaqueirama continua sentindo saudades das festas de Pega de Boi no Mato que eram realizadas no Serrote do Japão e do inesquecível Yoyô do Japão.

Fontes: (extinta) revista O Mensageiro e blog Arapiraca Legal – Pedro Jorge (com informações do músico Edílson Melo sobre Seba; e de Zominho Aboiador sobre Yoyô do Japão).

 

5.06 l  AFRÍSIO ACÁCIO E O PROJETO CULTURA NA PRAÇA (Por José Lessa Gama / Zé Lessa, 2 de dezembro de 2011)*

“O trabalho de Afrísio Acácio do Acordeon é inédito: ele executa um dueto no acordeon utilizando uma técnica própria, que retira acordes perfeitos entre os baixos e o teclado sem nenhum truque de mixagem.” – (José Lessa Gama/Zé Lessa)

Há algum tempo estava devendo ao amigo Afrísio Acácio do Acordeon, comparecer às atividades desenvolvidas pelo CTNA (Centro de Tradições Nordestinas de Arapiraca) fundado e dirigido por ele. Afrísio Acácio é um autêntico representante da cultura popular nordestina e é o responsável pelo Projeto Cultura na Praça, em Arapiraca (AL). Apresentado em uma Tenda Cultural, onde é demonstrada a livre manifestação da cultura da região que é tradicional centro produtor de grandes artistas como João do Pife (1932-2009), Duda Santos, Zé do Rojão (1938-2013), Zé Paulo, Hermeto Pascoal, Ditinha do Acordeon, Miguel Vieira, Bastinho da Sanfona, entre outros (as) que vivem ou viveram na RMA/AL (Região Metropolitana do Agreste Alagoano).

O Cultura na Praça teve início no dia 2 de maio de 2012 e acontece sempre às segundas-feiras das 8 ás 12h na praça Luiz Pereira Lima, ao lado da Casa da Cultura. A apresentação é feita pelo Poeta-Vaqueiro Afrísio Acácio. No local existe uma Tenda Cultural (uma cúpula que recobre o palco e uma arquibancada, em forma de arena), que fica repleta para ouvir os artistas que apresentam de duas a três músicas que pode ser um forró, baião, xote ou coco; além de toadas, aboios, bandas de pífanos ou até mesmo um recital de poesia matuta, poema ou cordel – tudo isso propiciando o resgate da autêntica cultura regional e as tradições do Agreste alagoano.

Entre os nomes que se apresentaram destaco Bastinho da Sanfona, João do Vialejo, Banda de Pífanos Pisa na Fulô, Mário Maia, Damião do Acordeon, Severo do Acordeon, Moisés do Forró, Adailton, Miguel Vieira, Laércio Moreno, Ednaldo do Acordeon, Claudemir e outros. Também esteve presente o locutor e cantor, Mano Alves, que apresenta o programa Forró Alegre Despertar na Rádio Palmeira FM (104,1), em Palmeira dos Índios (AL). Entre as propostas que apresentei à comunidade forrozeira foi a criação da Associação dos Forrozeiros de Alagoas, muito bem recebida por todos que fazem parte do CTNA.

  • José Lessa Gama/Zé Lessa é presidente da Associação dos Forrozeiros de Alagoas e administrador do site Forró Alagoano.

Fonte: site Forró Alagoano – José Lessa Gama/Zé Lessa (Maceió/AL).

 

5.07 l  MEMORIAL RESGATA HISTÓRIA DA MULHER NO AGRESTE DE ALAGOAS* (Por Davi Salsa com colaboração de Mônica Nunes, 2008)

Elas já não queimam mais sutiãs, em praça pública, mas o fariam de novo caso necessário. Afinal, as lutas e vitórias femininas não têm limites. Uma história deixada por lideranças que marcaram suas vidas, em busca de novas conquistas, sobretudo nas áreas social e política e que estão sendo resgatados no Agreste alagoano, com a implantação do Memorial da Mulher Ceci Cunha. Inaugurado no dia sete de março de 2008 (véspera do Dia Internacional da Mulher). O espaço funciona nas imediações do Parque Municipal de Arapiraca, sendo mantido pelo poder público local.

O memorial tem o nome da ex-deputada federal, Ceci Cunha – uma das mais expressivas lideranças políticas do estado de Alagoas e que foi brutalmente assassinada a tiros de espingarda. Ceci Cunha faleceu, no dia 16 de dezembro de 1998, momentos depois de ter sido diplomada deputada, em solenidade ocorrida no Fórum de Maceió. A parlamentar foi executada juntamente com três familiares: o esposo Juvenal Cunha, o cunhado Iran Carlos Maranhão e a sogra da irmã, Ítala Neide Maranhão Pureza. Conhecida como Chacina da Gruta, o crime ganhou repercussão nacional. Médica obstetra, Ceci Cunha foi a primeira mulher eleita para a Câmara Federal por Alagoas.

Para Mulheres e Homens – Dotado de moderna estrutura, o Memorial da Mulher Ceci Cunha abriga obras, documentos e relíquias que relatam a história da participação feminina na construção da história de Arapiraca e de outros municípios agrestinos. A ideia é ultrapassar os limites da conservação de documentos, entrando na interatividade possível, via da Era Moderna, entrelaçando fatos do passado, presente e do futuro. O memorial da mulher é um dos únicos do país no gênero, com similar apenas no estado do Rio Grande do Norte. O espaço dispõe de auditório para 50 lugares, galeria, sala de reuniões, santuário, praça lateral e jardins. Sobre ele, um mirante com espaço para apresentações e transformado em área de lazer onde o público joga xadrez, jogo de dama, entre outras diversões. Num toque bem feminino – e franqueado a todos – o local tem ainda um Café Cultural, com balcão para visitantes – disponível para a degustação de informações de temas voltados para a história da identidade feminina da antiga Capital Brasileira do Fumo.

A visita ao mundo das mulheres também é possível através de painéis fotográficos e de documentários com relatos de personalidades femininas. O memorial tem ainda parceria com grupos da sociedade civil organizada, a exemplo da Associação dos Idosos e das Empregadas Domésticas, além de secretarias de governo, escolas, entre outros segmentos sociais. O local virou símbolo e uma justa homenagem do povo às mulheres que se destacaram em diversos segmentos da atividade econômica, social e política na região.

  • Esta reportagem foi uma das três vencedoras do Prêmio Mário Pedrosa de Jornalismo – promovido pelo IPHAN (Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A matéria foi publicada no jornal Tribuna Independente e escolhida entre os três melhores trabalhos sobre Museus brasileiros, publicados na mídia nacional no ano de 2008. A reportagem destaca o conjunto de obras presentes no Memorial da Mulher Ceci Cunha e o trabalho desenvolvido no espaço para resgatar a memória da mulher agrestina, a exemplo da criação de um acervo exclusivo para preservar a tradição centenária do canto das destaladeiras de fumo de Arapiraca. Este prêmio é destinado a matérias jornalísticas sobre museus no Brasil, relacionadas ao tema: Museus Como Agentes de Mudança Social e Desenvolvimento.

Fontes: jornal Tribuna Independente e site AL Notícias – Davi Salsa e Mônica Nunes; e revista Xereta – redação.

 

5.08 l  CANTO DAS DESTALADEIRAS ESCAPA DA EXTINÇÃO (Por Davi Salsa com colaboração de Mônica Nunes)*

“Pisa Morena no caroço da mamona / Você toma o amor das outras / Mas o meu você não toma / Se tomar eu vou buscar / Pisa morena no caroço do Juá…”  Estes versos fazem parte de um conjunto de mais de 50 canções já catalogadas e que irão fazer parte do CD a ser lançado pelo grupo de Destaladeiras de Fumo de Canafístula – genuíno movimento cultural de Arapiraca (AL), formado oficialmente no ano passado. O álbum e um vídeo serão elaborados com recursos adquiridos por meio do Prêmio Culturas Populares, promovido pela Secretaria da Diversidade, do Ministério da Cultura, e que contemplou o ponto de cultura de Arapiraca Cultura Para o Desenvolvimento.

O resultado desses trabalhos tem endereço certo e vai muito além dos fãs e admiradores que o grupo pretende conquistar: será entregue ao Memorial da Mulher Ceci Cunha. “Será um presente que elas mesmas irão dar ao local, ampliando o acervo e deixando registrado um pouco da história dessas mulheres que fizeram o progresso de Arapiraca”, destacou a presidente da Associação de Moradores de Canafístula, Mariângela Lopes Barbosa, vista como um Anjo da Guarda entre as 20 destaladeiras-cantoras.

Quem Canta os Males Espanta – Hoje elas são, sem exceção, o retrato fiel da alegria e do entusiasmo. Duas vezes por semana ensaiam a coreografia e a voz. Na agenda, aulas de canto em escola de música patrocinada pela Prefeitura Municipal de Arapiraca. Tudo para aprimorar uma vocação natural nascida através do ofício de destalar e juntar as folhas de fumo. A profissão, multiplicada na região, por conta da ascensão da cultura do fumo, era praticada em grandes salões que reuniam milhares de pessoas. Numa jornada de trabalho que atravessava a madrugada, na época em que os rádios eram raros, era comum – e necessário – que surgisse algo que divertisse o grupo, mesclado por homens e mulheres.

Coube a elas, no entanto, a criação de uma espécie de brincadeira e que passou a ser levada a sério por quase quatro décadas. A partir de um mote nasciam os versinhos. “Podia ser a fome, um namorico novo ou até uma briguinha”, explicou Ana Xavier – destaladeira por mais de 50 anos e cantora do grupo desde sua fundação. O canto, cantado na forma de quadrilhas, sextilhas ou até pé quebrado (quando a rima não é obrigatória), ultrapassou anos, atravessou gerações, mas não resistiria aos novos ritmos da vida moderna. A aplicação das leis trabalhistas, por exemplo. Afinal, já não é mais permitida a jornada de trabalho ampliada, a presença das crianças no trabalho e a chegada dos aparelhos eletrônicos trazendo músicas para os mais variados gostos musicais.

Mesmo resgatadas através do livro do historiador Zezito Guedes intitulado As Cantigas das Destaladeiras, as músicas estavam ameaçadas de extinção, pois não eram mais cantadas. Até que surgiu a primeira iniciativa de renascimento na vila Fernandes, na zona rural de Arapiraca, e, mais recentemente, a do grupo de mulheres do bairro Canafístula. Felizes da vida, literalmente, elas cantam. Fazem isso sem cerimônia e sobre qualquer pretexto. Ainda como no passado, improvisam ou repetem a ladainha dos tempos em que Arapiraca era conhecida como a Capital Brasileira do Fumo. Tempo em que elas, anonimamente, construíram essa história de desenvolvimento e progresso. Hoje, vestidas em figurino apropriado e produzido por elas, arrancam aplausos – como na apresentação de Juazeiro (CE). Assim, mesmo com os dias contados para desaparecer dos salões de fumo, as cantadoras-destaladeiras trabalham pela preservação da espécie. Fazem isso através do grupo de Canafístula e da formação de novas cantoras formadas pelo Projeto Mestres da Cultura Popular Ação Griô, do qual Dona Angelina faz parte. Nas escolas da rede pública municipal ela dá aulas de cultura popular e, mais ainda, de como é possível ser e fazer feliz através da arte.

  • Davi Salsa e Mônica Nunes são jornalistas e integram a ASCOM (Assessoria de Comunicação) da Prefeitura Municipal de Arapiraca.

Fontes: jornal Tribuna Independente e site AL Notícias – Davi Salsa e Mônica Nunes; e revista Xereta – redação.

 

5.10 l  COCO DE RODA NELSON ROSA (Por Marcelo Amorim, 4 de novembro de 2001)

A tradição do coco de roda – manifestação folclórica mais antiga de Arapiraca (AL) -; é mantida por Nelson Vicente Rosa com entusiasmo e determinação. Homem simples, nascido na zona rural, abnegado à cultura local comanda o único grupo ainda ativo na região, o Coco de Roda Nelson Rosa, e conserva os mesmos passos e cantigas aprendidas ainda na década de 1940, quando teve seu primeiro contato, aos cinco anos de idade, com o samba de pagode, que originou a dança típica.

Nelson Rosa lembra que tudo começou com a construção de casas de taipas, no ano de 1938, quando moradores do Povoado Sítio Fernandes, onde ele reside até hoje, reuniam-se para aterrar o piso das construções feitas em barro e varas de madeira. “Nós trabalhávamos na roça durante o dia e á noite nos juntávamos em mutirão, para ajudar a erguer as casas e aterrar o piso, em barro, acompanhado de tocadores de padeiros que animavam o pessoal e, a partir de então, este ritual se transformou em dança”, destacou Nelson. O artista popular acrescenta ainda que, neste mesmo ano, uma mulher chegou até a localidade e, ao participar da manifestação, cantou uma música denominada de Araúna, que ficou para sempre na memória de Nelson Rosa e acabou inserida na tradição do coco de roda. ”Tem meu pé de cravina Araúna, foi meu amor que me deu”, diz o trecho mais conhecido da música.

O grupo comandado por Nelson, que está em atividade desde 1979, já realizou apresentações em festivais de folclore, feiras de artesanato e até mesmo na abertura dos festejos juninos na cidade de Campina Grande (PB), em 1988. A tradição do coco de roda também fez parte de um quadro do programa Fantástico, da Rede Globo de TV, em reportagem da jornalista Glória Maria. Entre os participantes, homens e mulheres, alguns com mais de 70 anos de idade, que têm no folclore um motivo a mais para se manter ativos, além, é claro, de guardar para futuras gerações os ensinamentos da própria cultura.

Em Arapiraca e região, o guerreiro, pastoril, reisado, o bumba-meu-boi e o coco de roda são manifestações folclóricas de maior tradição, mas apenas o coco de roda ainda permanece em atividade ao público, através do grupo de Nelson Rosa, que mesmo assim ainda enfrenta dificuldade em encontrar parceiro para a cantoria, que é feito pelos próprios componentes. Um grupo local da terceira idade também vem tentando reativar o pastoril na localidade. Já o reisado ainda permanece em atividade por meio de um único grupo no povoado de Camandanta, em Junqueiro/AL e o guerreiro deixou de existir, segundo confirmou Nelson Rosa, por causa dos custos de produção, que impediram as pessoas mais humildes, que mantinham a tradição, em seguir adiante.

Fonte: (extinto) jornal Tribuna de Alagoas – Marcelo Amorim.

 

5.11 l  UM TRUPÉ DAQUELES (Por Davi Salsa e Mônica Nunes, 4 de setembro de 2011)

Os cabelos grisalhos, o corpo robusto e os passos firmes nos dão o retrato de um agrestino, natural de Arapiraca (AL), que poderia ter escrito sua história a partir da vida agrícola na vila Fernandes, onde vive desde 1933 – ano de seu nascimento. Mas o homem de gestos e costumes simples foi mais além e fez nascer na vila onde mora, um povoado de pouco mais de 1.200 habitantes, muito mais do que os frutos da agricultora local. Nelson Vicente Rosa trouxe de volta o ritmo do coco de roda. Um trabalho pisadinho, iniciado em 1979, numa despretensiosa véspera de São João. Daí para frente o que se viu e ouviu foi uma trajetória de reconhecimento – que se deu aos poucos, mas que lhe rendeu o título e os ganhos como Mestre da Cultura Popular. O título foi conferido pelo Governo do Estado, em maio de 2005. Uma ajuda estendida a outros que, assim como ele, difundem a arte, a história, os modos e costumes a outras gerações.

Brilho de Vida – ”No começo não foi fácil. Mas agora eu vejo que essa história não morre mais. Já tenho substitutos”, diz ele, em referência aos meninos e meninas que integram o Brilho de Vida, um grupo formado por 21 jovens da comunidade, que fazem parte do Centro de Cultura Popular do Sítio Fernandes Mestre Nelson Rosa. “Chamo ele de vô”, comentou Jéssica de Souza, coordenadora da equipe, que tem entre seus componentes quatro netos legítimos do fundador. Inaugurado em agosto deste ano, o Centro de Cultura Popular nasceu a partir da iniciativa da população local e que, aliada à ajuda de uma cooperativa médica da cidade e de outras instituições, fez surgir um novo espaço para a disseminação da cultura local. Tudo isso somado ao investimento do próprio Nelson Rosa, que destinou parte dos recursos do Prêmio Culturas Populares, ganho em 2008, para a compra do imóvel.

Agora, não apenas o coco de roda do sítio Fernandes mas toda a cultura daquela gente ganha mais impulso. Assim, Nelson, que já era conhecido nacionalmente, graças às apresentações pelo Brasil afora, ensaia voz, coreografia, tons e gracejos das artes que brotam daquele chão para outras pessoas, sobretudo, os mais jovens. No local, além da tradicional cadência que ressoa do ganzá, surdo, pandeiro e triângulo, e que repica tamancos – há quem diga que, no coco, eles são o quinto instrumento -, a comunidade treina flauta doce e o Canto das Destaladeiras de Fumo. Este último, uma atração á parte e que parece não encontrar similar no país, pois se trata de uma cantiga típica das mulheres que destalam o fumo na região.

Quase um Sambinha – E assim, do alto das tamancas e com batidos à mão, o que se faz nada mais é do que uma versão ancestral do samba – até mesmo do pagode. Com menos cadência e muito mais inocência, o coco do Mestre Nelson Rosa resiste, bravamente. Resistentes, cantam e dançam coisas até certo ponto ingênuas como Ô Menininha, que os integrantes do Brilho de Vida sabem de cor. E, assim, de verso em verso, histórias de gerações se misturam no sítio Fernandes.  Gente como Jéssica e Nelson, que embalam a vida através de uma dança que até dizem se chama coco, porque vem da cabeça, das ideias e da mente. Juntos, trabalham para manter viva uma arte popular tão rica quanto pura. Um patrimônio que busca se eternizar ao aliar vidas distintas, ligadas pela tradição, pelo amor e respeito à cultura genuína brasileira.

Livro – Para consolidar tanto trabalho, pois é assim mesmo que Seu Nelson define sua arte, ele espera lançar um livro ainda este ano. Um projeto que já estava praticamente pronto e que seria publicado com apoio do SESC (Serviço Social do Comércio), durante a Bienal do Livro, que está marcada para ocorrer em outubro deste ano em Maceió (AL). “Já está tudo pronto, com 122 cantos e versos, além de 2 CDs”, comemora. O aguardo fica por conta da recuperação de um enfarte que ele sofreu no início deste ano.

E, enquanto o livro não vem, o cotidiano de Centro Cultural do Sítio Fernandes vai em ritmo intenso. Para isso, prosseguem os ensaios, apesar da ausência temporária do Mestre Rosa. “Quando ele não pode vir, a gente vai até a casa dele conversar, pedir conselhos e ensaiar”, diz Jéssica de Souza. Coisa de avô e neta, coisas de quem aprende com quem ainda tem muito a ensinar.

Fonte: jornal Tribuna Independente – Davi Salsa e Mônica Nunes.

 

5.12 l  AOS MESTRES DA NOSSA HISTÓRIA (Por Ronaldo Oliveira, 23 de agosto de 2013)*

Arapiraca (AL) é sem dúvida alguma um dos grandes celeiros da cultura popular do estado de Alagoas. Seu aspecto cosmopolita juntou uma plêiade de mestres da cultura popular, cada um com sua especificidade. São homens e mulheres nativos e forasteiros que aqui fincaram morada e fizeram brotar uma cultura forte e capaz de promover uma verdadeira Cultura de Paz. Já era tempo de alguém colocar nos holofotes estes verdadeiros heróis da resistência que plantaram, regaram e atualmente salvaguardam nossas tradições; e este reconhecimento veio através da prefeita, Célia Rocha, por intermédio da SECTUR (Secretaria de Cultura e Turismo de Arapiraca). O evento de ontem à noite, 22 de agosto (Dia do Folclore), ficará na história de Arapiraca. Um verdadeiro divisor de águas, pois os fazedores da nossa identidade cultural são reverenciados e nós estamos tendo a oportunidade de vivenciar e fazer parte deste momento histórico.

A bênção aos Mestres (a) Zezito Guedes (folclorista), Nego Aboiador, Cecílio Barbeiro (afinador de sanfonas), Davi (puxador de quadrilha junina), Duda, Eurídes, Pai Alex, João do Pife (O Rei do Pife, in memoriam) e Nelson Rosa (coco de roda) – cada um em sua área ajudou a construir nossa identidade cultural. Nomes como Zé do Rojão (in memoriam), Afrisio Acácio do Acordeon, José de Sá, Ditinha do Acordeon, Bastinho da Sanfona, Domingos Fonseca, Angelina, D. Nega e tantos outros que são destaques na formação da nossa história. Todos receberam seus certificados assinados pela prefeita e pela secretária da SECTUR, Tânia Santos – isto tem um grande significado, além de torná-los referências para estudos e pesquisas.

A exposição ficará, até 28 de setembro de 2013, no Museu Zezito Guedes e depois circulará pelos locais culturais do município a exemplo do Memorial da Mulher e Tendas Culturais. Porém, o grande barato será percorrer o município e encontrar estes Monstros Sagrados e, assim, poder bater um papo com cada um deles!

  • Ronaldo Oliveira é administrador de empresas, cordelista, radialista e membro da ACALA (Academia Arapiraquense de Letras e Artes).

Fonte: site 7 Segundos – Ronaldo Oliveira.

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Arapiraca Terra de Artistas é uma série de cinco volumes que têm por finalidade preservar, prestigiar e divulgar os legados dos artistas, escritores (as) e radialistas – nascidos (as), radicados (as) e/ou que iniciaram as suas atividades artísticas-culturais, em Arapiraca (AL). Esta coleção é uma compilação livre – resultado de uma ampla pesquisa em diversas fontes: livros, jornais, revistas, releases, informativos, entrevistas exclusivas, sites, blogs… esta inédita coletânea de perfis será de grande utilidade para pesquisa e, para a divulgação e preservação da memória cultural da Terra de Manoel André e Esperidião Rodrigues.                                                                 BOA LEITURA!

 

COLEÇÃO ARAPIRACA TERRA DE ARTISTAS

*Forró,  Forró Eletrônico e Sertanejo;                                                                                                  **Regional, Folclórico e Cordelistas;                                                                  **Cantores (as), Colecionadores de Discos e Instrumentistas;                                                  ***Escritores (as), Jornalistas e Colunistas Sociais;                            ****Artistas Plásticos, Artesões (ãs) e Caricaturistas;                                   ***** Radialistas;                                                                                                    ******(Atrizes) e Palhaços (as);                                                                              *******Bandas.

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