SERENATAS, FESTAS E LEILÕES EM ARAPIRACA


FRASE

“Conhecer com mais profundidade a cultura arapiraquense através de suas letras e artes é expandir os horizontes para novas descobertas, é concordar com o famosos físico Albert Einstein que disse: ´A mente que se abre a uma nova descoberta jamais voltará ao tamanho original´”.

Cláudio Olímpio dos Santos (presidente da ACALA – Acala Arapiraquense de Letras e Artes).
[ Fonte (frase): Livro “ACALA – História e Vida”, abril de 2009 ]

 

AS SERENATAS – Por Zezito Guedes ( Escritor, folclorista e artista plástico )

Vai longe o tempo em que soavam as cordas de um violão dentro da noite enluarada. Os primeiros noctívagos de Arapiraca foram: Mestre Jovino, Chico Cavalcante, Olegário Magahães, que “varavam” as madrugadas cantando: O Gondoleiro do Amor, Patativa, Casa Branca da Serra e outras músicas da época. Mais adiante tivemos Virgílio Rodrigues, Chico Leite, Gondim, Olegário, Enoque Leite, Zuza, Né do Juca, Audálio Macedo, Pedro Júlio e Antônio Leite que, ao som do violão, percorriam as seguintes ruas: do Cedro, Nova, do Cemitério, Boca da Caixa e do Arame, que encantavam as donzelas de então.

Lembro-me que, até 1960, ao apagar das luzes da música romântica, ainda vagavam pelas ruas centrais de Arapiraca, os últimos seresteiros e boêmios cantando as músicas de Orlando Dias, Nelson Gonçalves, Ciro Monteiro, Augusto Calheiros e outros da “Velha Guarda”. Eram: Né do Juca, Luís Reis e Epitácio Barbosa, acompanhados pelos violões de Olegário Leite, Antônio Barbosa e Major Ataide.

Quando surgiram a chamada bossa nova, a música do jovem guarda e o embalo, as serestas entraram em recesso e, a verdade é que lá se foram as serenatas românticas que encantavam as mocinhas daquela fase. Além desses delírios, aconteciam fatos curiosos e, até hilariantes.

Certa vez, numa dessas noitadas, vagavam pela atual rua Expedicionários Brasileiros, alguns adeptos da noite e companheiros de “opa”: Gama, Tavarinho, Melquíades e outros. Cantava Né do Juca, acompanhado pelos violonistas Olegário Leite e Antônio Barbosa. Já pela madrugada, ensaiavam cuidadosamente a valsa Rosa e, quando os violões fizeram a introdução para Né do Juca entrar, um jumento abriu a bocarra e rinchou até não querer mais. Houve uma algazarra e o cantor, encabulado, calou a voz e anunciou que não cantaria mais… Acabou-se a serenata.

[ Fonte: Livro “Arapiraca Através do Tempo”, 1999 ]

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AS FESTAS – Por Zezito Guedes ( Escritor, folclorista e artista plástico )

No início da década de 1930, as comemorações tinham aquele espírito romântico, aquele sabor ingênuo das festas tradicionais do interior nordestino.

Nas festas de N. S. do Bom Conselho, as moças enfeitavam as ruas do comércio com bandeirolas de papel colorido, formando arcos e armavam barracas cobertas de palhas de coqueiro, onde faziam campanhas em benefício da Igreja. Cada noite de festa tinha os seus patrocinadores ou responsáveis, que eram os noiteiros. Havia uma verdadeira competição entre eles, cada qual procurando superar o outro, para ver quem realizava a melhor noitada.

Nessa ápoca, o que iluminava mais as noites de festas eram as lâmpadas a carboreto dos jogos de caipira, das roletas das pessoas que bancavam jogo. Entretanto, a maior atração das noites de festas, além da Zabumba dos Ambrósios e dos fogos de artifícios de Pedro Nunes, era o carrossel de “Seu Léo Pereira” que corria as nove noites completamente lotado, empurrado por trabalhadores e animado por “oito baixos”, entre eles o de Mário Lima, que só tocou uma vez e se embriagou com a rotação do carrossel.

Terminada a festa da padroeira, vinha, em seguida, o carnaval de rua que era muito animado. Após o tríduo momesco, começava a Quaresma com as noites de Via Sacra e, em seguida, a Semana Santa. Depois, vinham as novenas do mês de maio – o “Mês de Maria” e, logo após, o ciclo junino, muito animado, com canjica, milho verde e pamonha, muitos fogos, fogueiras, casamento matuto e rainha do milho. A seguir, havia um intervalo de tempo muito animado, dedicado á colheita do fumo, com as mulheres cantando, que durava até o final do mês de outubro. Em seguida, comemoravam-se os dias de Todos os Santos e Finados, quando o povo reverenciava a memória dos mortos, com muito respeito. A fase natalina era muito romântica e a religiosidade se fazia presente. Finalmente, a Festa de Ano Novo, que completava o calendário anual das festas e folguedos.

[ Fonte: Livro “Arapiraca Através do Tempo”, 1999 ]

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AS FESTAS E OS LEILÕES – Por Zezito Guedes ( Escritor, folclorista e artista plástico )

As festas religiosas já foram muito frequentes em nossa comunidade e, algumas marcaram época pela importância entre os católicos de Município de Arapiraca/AL. Até o ano de 1960, nossas festas, além de movimentadas, eram também muito autênticas. Observando-se a presença marcante do regional, aquela espontaneidade do povo simples, a comunidade participava ativamente dos festejos através dos noiteiros, figuras representativas da sociedade local, responsáveis pelas atrações de cada noite. Os noiteiros se empenhavam no sentido de oferecer sempre o melhor e superar os que lhes antecederam, era uma espécie de concorrência amistosa, cujos resultados eram sempre positivos.

Por outro lado, as congregações da Igreja trabalhavam intensamente nas novenas, missas, procissões, leilões, se apresentando nas solenidades litúrgicas com muita formalidade a Congregação Mariana, as Filhas de Maria, os Sacramentos, não faltando ainda os coroinhas, formando tudo uma grande legião. Outa atração das noites de festas era a girândola de fogos de artifícios, que a meninada disputava com muito empenho; hoje os tempos são outros e a criançada já não corre mais atrás de vara de foguetes e, nem escuta o terno de Zabumba dos Ambrósios tocando na porta da Igreja.

Mas, a graça maior das festas do passado, era mesmo os pregões do leilão logo após a novena, quando eram arrematados todos os produtos das ofertas: garrotes, carneiros, perus, patos, galinhas, frutas, ovos e outros produtos que os leiloeiros, Toinho Cavalcante, Seu Balduino ou Crisóstomo, saiam gritando pelo meio da festa, num pregão grotesco e hilariante, que provocava muitos risos. Nessas ocasiões, ocorria uma enorme algazarra, com as irreverências dos leiloeiros anunciando o pregão. Hoje, as festas já não têm mais aquela graça daqueles tempos. Tudo vem se modificando através do tempo.

[ Fonte: Livro “Arapiraca Através do Tempo”, 1999 ]

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AUTOS NATALINOS –  Por Zezito Guedes ( Escritor, folclorista e artista plástico )
Nos primeiros anos pós-Emancipação, as manifestações populares eram muito frequentes em Arapiraca/AL. havia reisado, quilombo, coco de roda, cavalhada, folia de reis, pastoril, presépio, etc. que se apresentavam geralmente nas festas de fim de ano.

O primeiro pastoril que se apresentou em Arapiraca, foi ensaiado pela Profª Marieta Torres, exibia-se em um palco armado em frente á Igreja de São Sebastião. Era constituído de meninas moças da sociedade daquela época. Nesse pastoril, tomavam parte Rosinha Lúcio, Elvira Leite, Enaura Torres, Angelina Magalhães, Enedina, Cecília Lúcio, Estela Magalhães, Maroquinha Brito, Marieta Brito, Cecília, Estela Lúcio, Nésia, Liosa, Amélia e outras.

O acompanhamento musical era feito por uma pequena orquestra formada pelos músicos: Virgílio Rodrigues (trombone), Né Firmino (piston), Júlio Rodrigues (clarinete), Chico Leite (trombone), Gondim (contra-baixo), Filadelfo Macêdo (bombo) e Antônio Nobre (pandeiro).

Como era comum, entre uma jornada e outra, as pastorinhas ofereciam cantos, poesias e flores ás personalidades presentes, entre as quais: Cap. João Ferreira, Pedro Leão, José Imídio, Pedro Alexandre, Gervásio, João Biu, Né de Paula, Cel. Zé Farias e Maj. Esperidião Rodrigues – partidários do cordão azul; Zé Bernardino – e Lino de Paula – partidários do cordão encarnado,

Outro auto natalino que foi apresentado em Arapiraca durante muitos anos foi a Folia de Reis, que era ensaiado por D. Balbina Rodrigues de Melo, esposa de Esperidião Rodrigues. Era formado por seis moças que faziam o papel de pastorinhas. esta folia narrava a estória dos três Reis Magos do oriente, guiados pela Estrela em busca do Messias. O auto se apresentava em um palco armado em praça pública e, era acompanhado por uma orquestra de metal que tocava marchas populares, de 24 de dezembro a 6 de janeiro.

A Folia de Reis aceitava convites para apresentações em casas de famílias, sempre acompanhada pela multidão. No dia 6 de janeiro, o presépio era queimado em praça pública ao som de uma canção dolente executada pela orquestra e cantada pelas pastorinhas e pelo povo em coro. Em seguida eram proclamados os votos de Ano Novo para todos os presentes ali, bem como a promessa de repetir a Folia de Reis no fim do ano e o agradecimento da diretoria ao público.

Outro auto natalino que foi apresentado por D. Julinha Pereira, ainda nos anos 1920 – o Baile dos Astros, era constituído de jornadas, cantos e dramatizações que reverenciava a natavidade em Belém. O Baile dos Astros, que tanto emocionava o povo daquela época, foi ensaiado e apresentado por alguns anos. Com a morte de D. Julinha Pereira, desapareceu também a encenação, na qual tomavam parte algumas jovens reprsentando o Sol, o Vento, a Lua, as Estrelas, etc.

Outro ato natalino que assemelhava-se a uma peça teatral ou mesmo a um jogral era ensaiado por D. Maria Lima, o Baile dos Rei Magos. Era apresentado por algumas jovens – Flora Pereira, Palmira, Lalinha e Liosa, que representavam os Magos do Oriente: Baltazar, Belchior e Gaspar, cujo cenário era um presépio montado numa sala. Cada moça recitava uma parte, logo após, vinha a parte de canto e jornadas, reverenciando o nascimento do Messias.

O Baile dos Reis Magos era encenado com a queima do Presépio, terminando ciclo natalino no Dia dos Reis. Em seguida, surgia outra dedicada a senhora que ensaiou o pastoril – Conceição Lucindo (Nenem), casada com José leite, que organizou e apresentou durante muitos anos um animado pastoril composto de mocinhas da sociedade. Quando este auto natalino foi extinto, surgiu o pastoril de Maria do Juca, no qual tomavam parte, além das suas filhas – Giomar, Benilde e Celina, também Antônia Nobre e outras meninas daquela época.

Ainda nos anos 1930, Maria Fausto assumiu o comando dos autos natalinos e, ensaiou um bem organizado pastoril, no qual dançavam Helenita Correia, Cecília Lúcio e Suzinete Brito.

No início da década de 1940, a Profª Maria Fragoso ensaiou um pastoril que marcou época. Nele tomavam parte de seus filhos: Divacir – o pastor, Cleonice, Divaneusa e outros que animaram os fins de ano daquela época. Os grandes pastoris, como também, os carnavais de rua encerraram a chamada “fase de ouro”, em 1945.

Com o surgimento dos partidos políticos, houve uma séria divisão da família arapiraquense e, até manifestações populares foram afetadas.

Somente nos anos 1950, os pastoris ressurgiram por iniciativa de José de Sá e Antônia Nobre que voltaram a animar as festas de fim de ano. De 1953 1960, apresentaram-se bons pastoris, nos quais participaram: Rosângela Pereira, Levina, Laura, Uzenir Leite, Edinha, Adail, Leninha Wanderley, Zenaide, Jailda, Mirene Ribeiro e outras pastorinhas que causaram muita emoções nas festas natalinas de então. Atualmente, com a evolução do tempo, as meninas-moças não têm aquele interesse que havia no passado, ou seja, o pastoril não desperta mais aquela emoção de outrora.

[ Fonte: Livro “Arapiraca Através do Tempo”, 1999 ]

[ Editado por Pedro Jorge ]

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